terça-feira, 8 de maio de 2012

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Puta que pariu

Sou vergonha. Revolta, protesto e raiva.
Sou grená, vagões, ferrovias, história
Sou Fordinho do gol primeiro e Pereira Lima da ferrovia
Sou Maritaca, Ney, Dudú, Bergantim, sou tantos...
Sou a alma do Bazani que chora. Honrosa, mas chora

Sou brava e forte, fênix renascida
Sou corrompida, usada politicamente, sou mulher dos interesseiros

Sou santa e puta.

Sou torcida, coração, amor, pulso.

Sou nervos, pelo, flor...
Sou Fonte Luminosa

Hoje sou velha senhora, 62 anos, cansada, amarga...

Me usaram e usam,

Foram embora. Não jogaram. Grana, status, prêmio, bicho ou dinheiro?
Prestem atenção: pra mim o futebol nunca foi um fim e sim um meio!

Hoje é meu aniversário e tenho um pedido a fazer
Quem não gosta gostado de mim, vai embora. Afasta.

Sou Ferroviária. E não negocio minha história.



quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Em que parte do caminho nos perdemos...


Muito se tem falando, nos últimos tempos, sobre o perda da hegemonia brasileira no futebol. Discussão que ficou mais acirrada após a precoce desclassificação da Copa do Mundo da África. A gota d´água parece ter sido a emblemática derrota do Santos para o Barcelona na final do Mundial de Clubes, no Japão. Emblemática porque virou moeda corrente na boca da maioria esmagadora da mídia e dos próprios jogadores que “tomamos um banho de bola”. 

O discurso do conformismo encontrou, raramente, algum ponto discordante. Ironicamente, quem deu o contraditório foi o técnico do Barcelona, Josep Guardiola: “O Barcelona passa a bola como meu pai falava que vocês [brasileiros] faziam".

Pois é. Fazíamos em 1958 com jogadores como como Nilton Santos, Zagallo, Djalma Santos, Zito, Mazzola, Pepe, Dino Sani e Moacir. Sem falar, é claro, de Garrincha e Pelé. O jornalista e cineasta José Carlos Asbeg documentou em “1958, o ano em que o mundo descobriu o Brasil” aquele esquadrão que vencera a Suécia, o complexo de vira-latas da derrota de 50 e, de quebra, tocava a bola, de pé em pé. Nenhuma novidade.

Nada novo também 1962 no Chile ou 1970 no México (é bom dizer que aqui o início da Tv a cores ajudou sobremaneira no processo de construção do Brasil como o “país do futebol). Falamos até agora do futebol arte/vencedor. O utópico e ideal amálgama entre a vitória e a arte. O ético e o estético.

Mas não há como negar que o toque de bola do Barcelona remete à seleção brasileira de 82, comandada pelo mestre Telê. Exagero? Vejamos então as imagens da partida entre o Brasil e a Itália, de Paolo Rossi. Mesmo na derrota, depois de assistir, fica difícil evitar a expressão “futebol-arte”. O lateral esquerdo Júnior – o “capacete” - cansou de se deslocar a la “Daniel Alves” do Barcelona. E pergunto novamente: qual a novidade?

Claro que há também exemplos europeus. Historicamente, o futebol holandês talvez seja o que mais se aproxime do estilo de jogo aberto àquilo que chamamos de poesia. As muitas improvisações táticas da seleção de 1974, resultando no “futebol total”, ainda hoje é referência no esporte, mesmo com o perda do título para a Alemanha naquela Copa.

E, então, pergunto: em que parte do caminho nos perdemos? Longe de querer dar solução imediata à questão tão controversa, nos propusemos a lançar algumas ideias sobre o assunto.

A questão-raiz parece ser cultural. E aqui vou tomar emprestado parte de um texto escrito pelo Gilberto Gil, quando ministrou a Cultura do Brasil e, na ocasião, travava uma relação com o governo da Alemanha por conta da Copa naquele país.

O futebol tem muitas dimensões que se entrelaçam, formando um mosaico amplo, variado e global. Ele pode ser encarado como espetáculo, competição, ritual, metáfora, celebração, síntese, catarse. E tudo isso ao mesmo tempo. Mas não há apenas um futebol. Embora o conjunto de regras, o palco e a base do repertório sejam comuns, cada sociedade tem o seu modo próprio de jogar e de torcer, resultado de sua história e de sua cultura, e da interação de sua história e de sua cultura com as outras. O futebol tem, portanto, uma dimensão que integra as demais: trata-se de uma construção cultural. Abordá-lo enquanto fenômeno cultural, em suas relações múltiplas com o conjunto de signos e de expressões artísticas locais e planetárias, pode ser ao mesmo tempo uma experiência significativa e reveladora, em especial quando se realiza uma Copa do Mundo.
Tome-se, por exemplo, o caso do Brasil, país essencialmente sincrético e mestiço, seja racialmente, seja culturalmente, em que o futebol transformou-se no esporte nacional. O jogo de bola com os pés aportou em São Paulo na última década do século 19, cerca de 30 anos após a instituição, na Inglaterra, do livro de regras do "football association", uma iniciativa que perdura até hoje, capaz que foi de resumir e otimizar centenas e centenas de anos de experiências diversas de futebol, em países e contextos tão diferentes quanto a China dos imperadores e a Itália medieval. O novo esporte chegou na mala de um jovem aristocrata e logo tornou-se, ao lado do cricket, o esporte predileto da elite branca, restrito aos clubes sociais. Assim teria continuado, se os descendentes de escravos e índios não tivessem identificado na brincadeira semelhanças com a sua cultura.
Mais precisamente, com suas danças (como a embolada), suas lutas (como a capoeira) e todo o simbolismo de uma expressão própria da língua portuguesa que identifica tanto um movimento desconcertante de corpo, que permitia aos fracos perseguidos livrar-se de seus fortes perseguidores, enganando-os, quanto uma atitude, uma postura, um modo de ser, pensar e sentir: a ginga. O futebol se joga com os pés, as pernas e a cintura, e boa parte das manifestações culturais que se formaram no Brasil a partir da mistura de negros, índios e europeus baseia-se nos movimentos de pés, pernas e cintura. E na ginga. Foram necessários menos de 20 anos para os mestiços se apropriarem do futebol inglês, mesclarem aqueles movimentos, transformarem a ginga em drible e criarem o "futebol arte", expressão com que o mundo consagra o modo brasileiro de jogar.

Consideras as ponderações acima, não podemos nos prender na qualidade técnica dos jogadores. Àquilo que chamamos de futebol-arte nasceu, repito, por aqui mesmo, pelas questões tão bem colocadas pelo Gilberto Gil.

Nosso desvio metonímico – de trocar a parte pelo todo - parece ter outra motivação: mercadológica. O fim das categorias de base, por exemplo. Em alguns times elas foram simplesmente instintas. Em outros, são formados - a toque de caixa – times relâmpagos que tem por objetivo único revelar/vender jovens promessas. Afasta-se , assim, o conceito do futebol-conjunto, do futebol total, da bola de pé em pé. Pior que isso, afastam-se os “professores”, antigos mestres da bola e entram em cena profissionais/olheiros/empresário formados por esta nova estrutura mercadológica/ludopédica que se nos apresenta.

Acho, honestamente, muito difícil que esta lógica seja invertida. Exemplos que “vem de cima”, como a iniciativa do presidente do Santos de manter Neymar no clube e no Brasil podem acender uma luz de esperança nesse nevoeiro do futebol brasileiro. A questão está muito longe de ser simples.



segunda-feira, 18 de julho de 2011

Pequenas considerações sobre jornalismo e seleção brasileira

O jornalismo esportivo no Brasil passa por um processo de espetacularização sem precedentes. Confunde-se o ‘espetáculo esporte’ com a informação/análise sobre ele.

O desvio metonímico da parte (mídia) pelo todo (esporte, em especial o futebol) é exacerbado nos programas de tv – principalmente os de tv aberta. Aprisionados pela guerra da audiência, os noticiários de esporte deram lugar a programas de entretenimento.

Cortes de cabelo, cores de chuteira e um conteúdo em que tudo - exceto a informação - importam, ganham cada vez mais espaço na tela. Por outro lado, os formatos não lineares de edição confundem ainda mais este ‘novo telespectador’, que já nasceu na internet e usa a tv como complemento de seu conteúdo imagético. Quanto mais sensação, melhor. Quanto mais confusão, melhor.

Os novos ângulos de câmera, a linguagem informal e o bom humor não são um pecado. Aliás, nunca foram. Não são poucos os exemplos do passado que abusaram destes recursos. O problema é a falta de informação atual. Melhor dizendo, a substituição da informação pelo simples “entreter”.

É bem verdade que a crônica, enquanto gênero literário, nasce para entreter. Inaugurada na França pelo jornalista Jean Louis Geoffroy, em 1800 no Journal dês Débats, ela tinha a função de passar em revista os fatos da semana e entreter o leitor e conceder-lhe uma pausa para o descanso.

Mas será que não evoluímos de 1800 pra cá? Fico preocupado com a garotada que escolhe prestar jornalismo no vestibular e acha que jornalismo é isso. Ou apenas isso.

Ao lado da preocupação acadêmica, incomoda-me o lado torcedor da Seleção Brasileira de Futebol. Assim como setores midiáticos esquecem o principal – a notícia- a seleção de Mano Menezes esquece o futebol. Tudo é mais importante: o patrocínio, o cabelo, o assédio dos times europeus, a entrevista depois do jogo... Menos aquilo que é feito durante os 90 minutos.

Fico pensando que esta falta de comprometimento dos jogadores com a Camisa é que provocou o divórcio entre o torcedor e a seleção. Não vi ninguém chorando indignado pela derrota na Copa América. Talvez, ao invés de chorar, estejamos todos – a exemplo do presidente da CBF, ‘cagando’ para tudo isto.

Estamos a menos de três anos da Copa do Mundo no Brasil. O relógio corre pra imprensa, torcida, cartolas e jogadores. Mas a principal questão não é de velocidade. É de postura. Dentro e fora de campo.



Rodrigo Viana é jornalista esportivo da Tv Brasil e professor de pós-graduação em Jornalismo Esportivo na FMU

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

sábado, 8 de janeiro de 2011

Grande Sertão Paulista II - Ipad, Willen e família


Capítulo 2

No caminho da sede da Tv Brasil, em São Paulo, até a vizinha cidade de Osasco, a 24 kilômetros da capital, o motorista de táxi, de nome Valdir, conversou:

- O Ipad vai substituir o livro.

- Será, Valdir? Será que pega...?

- Já pegou! É impressionante a facilidade dele. Você liga e já está conectado. Estou comprando um pra mim.

Essa fala do Valdir, sujeito simples, negro de traços fortes e fala tranqüila remeteu-me à revolução surda que a internet e os novos meios digitais de convergência estão fazendo. Não há mais barreiras.

Mas Osasco é coladinho em São Paulo e abortei os pensamentos de transmídia. Era hora da bola rolar. E como rolou.

O Vasco fez um, dois, três....sete gols pra cima do fraco Linense. Fraco até no tamanho. Comentei, durante a transmissão, que era visível a diferença de porte físico entre os jogadores das duas equipes.

Willen, camisa 9 da equipe da Cruz de Malta, antes do jogo, pediu-me: - Por favor, meu nome é U- i- lli- en. Pronuncia-se com “U”. Está todo mundo falando errado!!

Gostei do abrasileiramento que o garoto defendeu. Gostei mais ainda dos dois gols que fez na goleada vascaína. Mas o que, definitivamente, fez-me gostar do U- i- lli- em foi a comemoração do garoto ao fim do jogo. Foi até o alambrado, encontrou-se com a família, que viajou do Rio de Janeiro para Osasco para acompanhá-lo! Havia faixas, cartazes e toda sorte de badulaques de incentivo ao menino. Recebeu beijo da mãe, namorada, gritos de guerra dos amigos. Tudo, devidamente registrado pelo olho da Tv Brasil, ao fim da transmissão.

Uma história bacana. Digna de ser escrita e publicada num Ipad. Vou passar para o taxista Valdir.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Grande Sertão Paulista: Elias



Nonada. Assim o mineiro João Guimarães Rosa inicia Grande Sertão: Veredas, grandioso romance da literatura brasileira. Já li algumas vezes o Grande Sertão e a tradução mais próxima que cheguei de “Nonada” é algo como “não e nada”.

Nada se enxergava no gramado da moderna Arena Barueri. Ainda na transmissão, pouco antes das torrentes de água caírem, anunciei:

- Neste momento caem alguns pingos d´água, mas daqui a pouquinho virá um dilúvio.

E assim foi. Choveu muito no segundo- tempo. Choveram também os gols. Foram quatro embaixo de chuva, complementando o placar do primeiro tempo (que havia terminado 4 a 0 para o Corinthians) em 7 a 1 para os alvinegros contra os bravos meninos de Cáceres, do pantanal do Mato Grosso.

Não. Não foi a goleada que me chamou atenção. Foi Elias, autor do quarto gol corintiano. Entrevistei-o dois dias antes para uma reportagem da Tv Brasil. Menino simples, voz tranqüila. A gente que é repórter conhece o entrevistado atrás das câmeras. Porque na frente todo mundo é bacana, não é?

E Elias ficou proseando comigo depois da entrevista. Combinei com ele de entrevistá-lo na partida. Ele contou-me um pouco de sua história de vida. Cativou-me o Elias.

E Elias fez um golaço. Viu o goleiro adiantado e não teve dúvidas. Encheu-se da certeza dos grandes e encobriu o arqueiro da Cacerense. É isto mesmo, gol de gente grande, gol de craque, golaço, já pra entrar na história desta competição. Nonada.

O que me chamou a atenção mesmo foi o choro de Elias, compulsivo, quando viu seu companheiro de time, Ângelo, caído ao chão. Logo no início do jogo, com a vontade de quem quer ganhar o mundo, o menino corintiano disputou a bola de cabeça com Fernando, do Cacerense. Na verdade, foi uma disputa de cabeça com cabeça. Ali, perto do gramado, fiquei olhando a cena desde o começo. O choque, a queda, as pernas tremendo na convulsão de Angelo, o time rodeando, o médico chegando, a ambulância não chegando. Tudo era cenário de desespero.

Elias, no cenário. Saiu correndo para a beira do gramado – não queria ver o amigo convulsionar-se – chorou acolhido pelos outros companheiros. Depois, chorou mais. E mais. O jogo recomeçou. O Corinthians fez um, dois, três...e Elias fez aquele quarto gol de cobertura. Na saída para o intervalo, fui entrevistá-lo, conforme combinado dias antes. Ao final da conversa, ainda disse a ele:

- O Angelo está bem, falamos com o médico agora, fique tranqüilo.

-Que alívio. Graças a Deus, .

E citando Guimarães outra vez, que Deus venha armado quando vier, porque nunca vi tanta chuva, choro, gols e Elias como nesta quarta-feira, em Barueri. Nasceu um ídolo.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Como se não fosse Zico

Estive com Zico há 3 semanas. Fiz uma entrevista exclusiva com o Galo para a Tv Brasil. A pauta era o pedido de demissão da direção de Futebol do Flamengo. Zico deixou o cargo porque, entre outras, acusaram seus filhos de estarem se favorecendo do cargo do pai. Mexeram com sua família, ele não aceita...foi o que disse.

E falou também várias outras coisas. Atendeu-me com a habitual cordialidade. Como se ele, Zico, não fosse Zico. Falou de tudo, com calma, serenidade. Foi mais de uma hora de conversa nas dependências do CFZ – Centro de Futebol Zico, na Barra da Tijuca, no Rio.

Hoje, nos corredores da Tv Brasil, aqui na cidade maravilhosa, reencontrei Zico. Veio participar do programa da mineira Leda Nagle ao lado de um dos filhos, o Bruno.

Zico me viu: - Tudo bem, ficou boa a matéria? Não tive como ver...! Era Zico...novamente, se comportando como um normal. Como se não fosse Zico.

E ainda, quando estava indo embora, Zico disse: “Mestre, grande abraço pra vc.” Mestre?! Eu?

Recorro ao Guimarães Rosa, esse sim, mestre, para prestar minha homenagem ao Galo: “Mestre não é quem ensina. É quem, de repente, aprende”.



Obrigado, Zico por mais este autógrafo na alma.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Crônica da Chegada

É tarde de segunda-feira. O céu está cinza, mas a energia que vem do mar é transformadora. Passeio pelo Leblon, Ipanema, subo a pedra do Arpoador e ando toda Copacabana. Olho pro céu e flano junto com as gaivotas em seu vôo limpo e suave. E Deus existe.

As linhas de cima tornaram-se concretude ontem. Depois da primeira semana de trabalho, tirei o dia pra me encontrar com o Rio de Janeiro.

Existe, e quem já veio ao Rio sabe disso, uma áurea especial nos cariocas. Em outra ocasião escrevi que deve ser porque a cidade maravilhosa une os dois maiores projetos do criador: o mar e a montanha. E o ser-humano acaba se amalgamando a essa natureza, meio que fazendo parte dela.

Ontem também foi aniversário do João Vítor, meu afilhado. Recordei que, certa vez, ao terminar o projeto que me daria o diploma de jornalista, grafei – em letras garrafais – nas dedicatórias: “Dedicado ao João Vítor, meu afilhado e quem o futuro pertence”. E nós chegamos no futuro, meu pequeno/grande João.

Estas memórias afetivas tem um motivo: o trabalho que me trouxe ao Rio. É o terceiro projeto do ano que engato na Tv Brasil. Toca-me, de maneira muito especial, os anseios de uma TV pública, com acesso à população e uma abordagem de conteúdo não convencional/comercial.

Por isso, o texto da vez soa mais como uma oração de agradecimento. Ao Divino, aos amigos e principalmente ao fluxo da vida que, assim como o mar, vai e vem.

Espero fazer um trabalho digno. E não decepcionar os que me acompanham.



Dedicado ao Bernardo, Théo, Enzo e Luiza, meus sobrinhos amados e quem o futuro pertence

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Muita calma nessa hora...


No momento em que escrevo este texto, a Ferroviária vem de uma série invicta de 8 vitórias na Copa Paulista. É um número a ser observado.
Dificilmente uma equipe, em qualquer torneio ou divisão, consegue tal feito. Muitos vão dizer que a Copa Paulista não serve pra nada ou, quando muito, serve para preparação do time para a série A-2. Concordo em parte.
É verdade, e esta ideia foi vendida pela diretoria, pela imprensa araraquarense e por toda comunidade, que a Copa Paulista serviria como laboratório para os comandados de João Martins. Ver quem serve e quem não serve para o próximo campeonato, que é o que realmente importa. A este respeito indico a leitura do blog: afegol.blogspot.com, em que o autor, Ricardo Gomes, faz uma análise individual dos jogadores.
Mas também é verdade que algo diferente está acontecendo. O até então instável (principalmente nas escalações) técnico João Martins parece ter conseguido dar um padrão de jogo ao time. Mais que isso, os jogadores do atual elenco parecem ter internalizado que a Arena da Fonte é "nossa casa". As exibições em Araraquara – sempre cercadas de descrédito – seja pela pressão da torcida, seja pelas dimensões do gramado, estão sendo boas.
Mas que o torcedor não se engane: logo virá uma derrota! Falando assim, soa pessimista, eu sei. Mas não é. É realista. Como todos sabem, esta Copa Paulista é uma experiência. E não há time que fique invicto pra sempre. Nunca é demais frisar que o importante, para a Ferroviária, é a série A-2, e logo depois, voltarmos à primeira divisão.
Então, um eventual título da Copa Paulista – e a classificação à Copa do Brasil – como já ocorreu em 2006, será lucro. Se ocorrer que bom! Se não, que bom também. O importante, neste momento, é que estamos formando uma base sólida para o Campeonato Paulista da série a-2. Bons jogadores, um padrão de jogo e um panorama de segurança que nos permite sonhar com o acesso – este sim desejado – à série A-1. E não chorar com rebaixamentos como tem ocorrido nos últimos anos.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Renê Simões quer ser o Diretor Técnico da Seleção

Falei agora mesmo com o Renê Simões. Ele me mostrou o projeto para a transição do futebol brasileiro. Disse que quer fazer a transição. Não quer ser técnico. Quer ser diretor técnico e está dando a cara.
Tem o perfil.
Disse ainda que aceitaria ser um técnico-tampão. Mas quer ser é Diretor.

sábado, 5 de junho de 2010

Na Tv Brasil, o Repórter África, Copa 2010

Vivo futebol desde a infância. Trabalho com jornalismo esportivo há mais de 15 anos. Vejo agora, nesta Copa da África, nação irmã, alguns pequenos anseios da minha vida tornarem-se reais.

Escrevi um guia especial da Copa do Mundo, encartado na Revista Imprensa, nas bancas a partir desta segunda-feira.

Leio a Imprensa desde os tempos de faculdade. Aprendi muito com ela e, agora, tenho a oportunidade de lançar um produto editorial na própria. E isso é bom. Inclusive pra fugir do estereótipo de que jornalista de tv não sabe escrever. É o que mais gosto de fazer.

De outro lado, volto pra tv depois de pequeno inverno. Desta vez num ambiente mais parecido comigo. Numa tv pública, aberta à população, mediando um programa diário sobre a Copa do Mundo.

O Repórter África estreia na próxima quinta-feira, dia 10, às 11 da noite na Tv Brasil. É uma revista eletrônica diária, com um olhar diferente sobre a Copa. Tratamento artístico nas matérias, convidados com perfil artístico e cultural. Coisa diferente. Verão.

Enquanto escrevo estas linhas daqui do Rio de Janeiro, invade-me uma sensação de dever cumprido. Aquilo que Laing disse ser a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior. Essa expressão está sendo fundamental neste momento da minha vida.

E queria dividir isso com vocês. Solicitando ainda, que acompanhem tanto a revista como o programa na Tv.

Era isso.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Passeio Socrático

por Frei Beto

Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos em paz em seus mantos cor de açafrão.

Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir:

- "Qual dos dois modelos produz felicidade?"
Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei:

- "Não foi à aula?"

Ela respondeu: - "Não, tenho aula à tarde". Comemorei:

- "Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde".

- "Não", retrucou ela, "tenho tanta coisa de manhã..."

- "Que tanta coisa?", perguntei.

- "Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina", e começou a elencar seu programa de garota robotizada.

Fiquei pensando: - "Que pena, a Daniela não disse: "Tenho aula de meditação!"

Estamos construindo super-homens e supermulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados. Por isso as empresas consideram agora que, mais importante que o QI, é a IE, a Inteligência Emocional. Não adianta ser um superexecutivo se não se consegue se relacionar com as pessoas. Ora, como seria importante os currículos escolares incluírem aulas de meditação!

Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! - Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: "Como estava o defunto?". "Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!" Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Outrora, falava-se em realidade: análise da realidade, inserir-se na realidade, conhecer a realidade. Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Pode-se fazer sexo virtual pela internet: não se pega aids, não há envolvimento emocional, controla-se no mouse. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual, entramos na virtualidade de todos os valores, não há compromisso com o real! É muito grave esse processo de abstração da linguagem, de sentimentos: somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. Enquanto isso, a realidade vai por outro lado, pois somos também eticamente virtuais…

A cultura começa onde a natureza termina. Cultura é o refinamento do espírito. Televisão, no Brasil - com raras e honrosas exceções -, é um problema: a cada semana que passa, temos a sensação de que ficamos um pouco menos cultos. A palavra hoje é "entretenimento"; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela.

Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: "Se tomar este refrigerante, calçar este tênis, usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!"O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

Os psicanalistas tentam descobrir o que fazer com o desejo dos seus pacientes. Colocá-los onde? Eu, que não sou da área, posso me dar o direito de apresentar uma sugestão. Acho que só há uma saída: virar o desejo para dentro. Porque, para fora, ele não tem aonde ir! O grande desafio é virar o desejo para dentro, gostar de si mesmo, começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor.. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Se alguém vai à Europa e visita uma pequena cidade onde há uma catedral, deve procurar saber a história daquela cidade - a catedral é o sinal de que ela tem história. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingos. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno.... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do McDonald's…

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: "Estou apenas fazendo um passeio socrático." Diante de seus olhares espantados, explico: Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz.

Sobre o Autor

Frei Beto : Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, escritor e assessor de movimentos sociais, é autor de "Típicos Tipos" (A Girafa), prêmio Jabuti 2005, entre outros livros.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Armando Nogueira 83



Inspirado em México 70, crônica mais famosa do autor, publicada por ocasião da conquista do tri-mundial da seleção brasileira, no Jornal do Brasil

E as palavras, eu que vivo delas, onde estão? Onde estão as palavras para contar a vocês e a mim mesmo que Armando Nogueira morreu? O Brasil está triste e toda a multidão de leitores está em transe. Parece uma comoção nacional: admiradores com os olhos deitados nos livros, revistas, jornais e arquivos. Cem olhos a lembrá-lo.

Levam-lhe os jornais levam-lhe os livros. Sei que é total a alucinação nos quatro cantos do país, mas só tenho olhos para a cena insólita: há muito que arrancaram as crônicas esportivas dos jornais. Só faltava, agora, alguém tomar-lhe a vida, derradeiro poeta da bola. Uma pena lírica de um semideus dos escritos.

Mas, felizmente, a cautela e o sangue-frio vencem sempre: venceram, com o Brasil, o
Mundial de 70, e venceram, também, na hora em que o desvario pretendia deixar Armando Nogueira completamente esquecido aos olhos de quase duzentos milhões de brasileiros.

E lá se vai Armando, correndo pelo céu afora, coberto de glórias, coberto de lágrimas, atropelado por uma pequena multidão. Essa gente, que está aqui por amor, vai acabar
sufocando as crônicas de Armando Nogueira. Se os jornalistas não entram em campo para homenageá-lo, coitado dele.

Coitado, também, dos livros de Armando, pendurados em mil prateleiras – Drama e glória dos Bicampeões, Na Grande Área, Bola na Rede, O Melhor da Crônica Brasileira, Bola de Cristal, O Homem e a Bola, A Copa que ninguém viu e a que não queremos lembrar, O Canto dos meus Amores, A Ginga e o Jogo e um sombreiro imenso de outros textos, entrelaçando ficção e realidade, carregando, por todos os lados, o sabor da paixão coletiva.

O jornalismo brasileiro, nesse momento, é um manicômio: botafoguenses e vascaínos, corintianos e palmeirenses, flamenguistas e fluminenses, com bandeiras enormes, engalfinham-se num estranho esbanjamento de alegria e saudosismo.

Agora, quase não posso ver o futebol lá embaixo: chove reportagem e emoção no texto de Nogueira. Esse acreano que nasceu jornalista foi feito para o futebol: sua arquitetura de palavras põe o povo dentro do campo, criando um clima de intimidade que o futebol, somente em Armando Nogueira, toma emprestado à literatura.

Cantemos, amigos, a fiesta brava, cantemos agora, mesmo em lágrimas, os derradeiros instantes do mais bonito texto que meus olhos jamais sonharam ver.

Pela correção dos parágrafos, escritos em oitenta e três anos de vida. Pelo respeito com que todos os profissionais da imprensa prestam a ele, imagem a imagem, reportagem a reportagem, trocando informações, trocando consolo, trocando destinos que hão de se encontrar, novamente, em alguma crônica de Armando Nogueira.

Choremos a alegria de uma vida admirável em que o Brasil fez futebol de fantasia, fazendo amigos. Fazendo irmãos em todos os continentes.

Orgulha-me ver que o futebol, nossa vida, é o mais vibrante universo de paz que o
homem é capaz de iluminar com uma máquina de escrever, seu brinquedo fascinante. Oitenta e três anos, nenhuma baixa. Várias emissoras de TV e jornais – hoje ele morreu. Mas não há bandeiras de luto no mastro dos heróis do futebol.

Por isso, recebam, logo mais, no velório, no Maracanã, o herói do Mundial de 70, de 1994, de 2002 com a ternura que acolhe em casa os meninos que voltam do pátio, onde brincavam. Perdoem-me o arrebatamento que me faz sonegar-lhes a análise fria da obra de Armando Nogueira. Mas textos póstumos são assim mesmo: as análises
cedem vez aos rasgos do coração. Tenho uma vida profissional cheia de ídolos que já se foram e, em nenhum deles, falou-se de análises de vidas. Homenagem é sublimação, homenagem é pirâmide humana de olhos nas frases geniais de Armando Nogueira: “Heróis são reféns da glória. Vivem sufocados pela tirania da alta performance” ou, ainda: “Deus é esférico”. Homenagem é antes do nascimento, depois do nascimento. Nunca durante a vida.

Que humanidade, senão a do esporte, seria capaz de construir, sobre a abstração de um texto, a cerimônia a que assisto, neste instante, querendo chorar, querendo gritar? Os campeões mundiais de futebol em volta do caixão, a beijar a corpo de Armando Nogueira, pai adotivo de todos nós, brasileiros? Ternamente, o capitão Carlos Alberto cola o corpinho dele no seu rosto fatigado: escreveu para sempre, escreveu por ti, adorável peladeiro do Aterro do Flamengo. Armando, agora, é teu, amiguinho, que mataste tantas aulas de junho para ler seus textos. Ele é quem vai baixar, em espírito, no Jalisco de Guadalajara.

Sorve nos textos de Nogueira, amiguinho, a glória de Pelé e do nosso futebol, que tem a fragrância da nossa infância.

Armando Nogueira é eternamente teu, amiguinho.

Até que os deuses do futebol inventem outro.

Rodrigo Silva Viana é jornalista, com mestrado em Literatura. Analisou crônicas de futebol. É também professor de jornalismo esportivo na pós-graduação da FMU – Faculdade Metropolitanas Unidas.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Da pureza 3

O texto é velho. Publiquei-o a primeira vez quando o Dorival Junior chegou à semifinal do Paulista pelo São Caetano.
Depois, quando o Vasco arrancou rumo ao título da série B, tornei a fazê-lo presente.

Agora é o Santos, que ganha de 9 x 1.
O texto é velho, mas a pureza continua a mesma

"Vejo o Junior uma vez por ano. Seu Dorival, o pai, mora no Santana, pertinho da casa de meus saudosos avós maternos Dito e Niva. Quando é Natal ou outra data importante do ano, o pica-pau, apelido dele, pára pra prosear. Falamos de tudo: do seu trabalho como desenhista na Viana engenharia na Rua Expedicionários do Brasil, no São José, quando ainda cursava o técnico em agrimensura no Logatti. Ele pergunta por meu pai e tios, depois lembro do futebol dele na Ferroviária na década de 80. Palmeiras, Grêmio, Juventude e outros tantos. No fim do ano passado paramos naquela mesma esquina para conversar:

- Fui convidado para dirigir o Paysandu. O time está na série A do Brasileiro, mas vou agradecer e recusar. Formaram a equipe agora. Tudo na vida tem que ser feito aos poucos, por etapas – contou o Junior no seu tom sereno e tranqüilo. Resultado dessa conversa: o Junior foi dirigir o Sport Recife e terminou como campeão pernambucano e o Paysandu, sem Junior nenhum comandando, foi rebaixado para a segunda divisão.

Ultimamente, além da esquina da casa da vó, o Brasil está tendo a oportunidade de conhecer de perto o Dorival Junior . Todos os finais de semana, em rede nacional, nas principais emissoras de televisão do Brasil ou nos jornais da capital, todos se perguntam, assombrados, quem é esse rapaz que conseguiu aplicar, de uma só vez, um nó tático no Muricy Ramalho do São Paulo e outro no Santos, do inatingível Vanderley Luxemburgo.

O rapaz, técnico do time do São Caetano, é sobrinho do moço de Araraquara. O moço de Araraquara – expressão criada por Fiori Gigllioti - é o Dudu, médio-volante dos áureos tempos grenás e mágico da academia de futebol do Palmeiras dos anos 70.

Assim como o Dudu , o Junior é cria da Ferroviária. A classe que ele ostenta com as palavras – a mesma que, ao lado do tio, tratava a bola – certamente está relacionada com o fato de os dois terem surgido na Ferroviária.

Claro que a boa educação que Junior e Dudu receberam da família influenciaram suas trajetórias. Mas como disse o escritor Lourenço Diaféria em sua crônica Que Simpatia!, em 1968, `além da simpatia, a Ferroviária possui também a fortaleza dos times de bem, cultivando o futebol com carinho e seriedade. Para ela, o futebol não é um fim, é um meio. Um instrumento de afirmação, uma ferramenta de trabalho, pela qual zela e do qual cuida.`

Talvez seja também por isso que o treinador da Ferroviária, Édson Só, vem fazendo este trabalho primoroso na série A-3 do campeonato paulista. Deve também ser esta a exata explicação para o gol nos acréscimos do Leandro Donizete na vitória grená do último sábado.

O momento do Junior no São Caetano e da Ferroviária no Paulista da A-3 convergem para o mesmo caminho que fazia os grandes tremerem em Araraquara nas décadas de 60, 70 e 80. A locomotiva parece caminhar de volta aos trilhos. "

quinta-feira, 11 de março de 2010

Twitteneurose

Não, a palavra não existe. Mas criei-a, assim como Evan Willians, Biz Stone e Jeff Bezosque, criaram o microblog. Lá, posto minhas idéias sobre o jornalismo esportivo, professor que sou. Converso com amigos, reencontro outros e discuto coisas. Às vezes, e não são poucas, escrevo bobagens por lá.
Mas também perco amizades. Dia destes, um ex-amigo de outro estado do Brasil, me desejou, via twitter, o inferno. Isto mesmo! “Então vai pro inferno” foi a tuitada dele, em tom agressivo. O motivo? Dei um unfollow em seu perfil. Ou, para traduzir, parei segui-lo – o cara escrevia compulsivamente sobre tudo e todos e ainda retuitava (replicava conteúdo de outras pessoas) a todo momento. Expliquei pra ele que os twitters dele me atrapalhavam, que eu precisava trabalhar, que usava o microblog como fonte de informação/discussão...nada adiantou. Tive que contentar-me em procurar o caminho do inferno, logo eu, que vivo buscando a estrada oposta – a do paraíso.
Hoje acordei disposto, alegre, com um monte de planos e trabalhos pra fazer. Ao acessar o microblog, deparei-me com uma mensagem de uma amiga: “ Estou brava com você, porque não respondeu meus twitters”. Pensei em responder dizendo a verdade, isto é, que não tive tempo, ou que não acho assim tão importante dar “bom dia” no twitter, que prefiro relações reais, enfim. Guardei-me.
Vim para o papel em branco e rabisquei isto que lêem. Continuo achando uma maravilha as novas ferramentas da interatividade digital e suas possibilidades de comunicação. Mas abomino qualquer forma de ruído que as novas mídias possam gerar. Principalmente quando não há motivo pra isso. Já temos neuroses demais com que nos preocupar.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Luis Barbosa


Pouco mais de 6 da tarde de uma quarta-feira quente. O cenário é um campo de futebol precário na região central de São Paulo: terra batida em alguns cantos e grama alta em outros. Nem dá pra acreditar que o Estádio Nicolau Alayon pertence ao Nacional, um dos clubes mais tradicionais do Brasil. Dentro das quatro linhas, Botafogo e São Carlos fizeram um jogo tão ruim quanto o chão em que pisavam: empate em 1 a 1 na partida eliminatória da segunda fase da Copa São Paulo de futebol júnior. Pênaltis.

O goleiro negro do Botafogo, Luis Guilherme, pegou três cobranças dos adversários. O time carioca superou o paulista por 3 a 2 e se classificou. ‘Amarrado’ por fios, fones e uma parafernália eletrônica corri, após a última defesa, pra entrevistar o herói da partida: certamente mais uma entrevista de um garoto deslumbrado, já que além da Tv Brasil, outras duas emissoras transmitiam a partida para todo o país. O jovem arqueiro não perderia a chance de aparecer.

Aí que veio o melhor do jogo. Sim, o melhor momento da partida foi após a partida. Primeiro pelas minhas patacoadas: o cabo do microfone não chegava até onde o goleiro estava. Gritei frenética e ridiculamente para ele: “Venha até aqui...por favor, até aqui”.

Tranquilo, depois de atender outros jornalistas, Luis Guilherme caminhou até onde eu me encontrava. Com algumas várias vozes nos ouvidos (quem já fez reportagens ao vivo ou escutou duas emissoras de rádio ao mesmo tempo, sabe do que estou falando) comecei a entrevista perguntando quantos pênaltis ele havia agarrado. Deu-me um branco geral, afinal estava preocupado com o microfone, o fio, a distância... e, num lapso do tempo, o mais importante, a informação, foi-se de mim. Educadamente, o Luis Guilherme respondeu que havia pego três pênaltis, que estava cumprindo o trabalho dele e que o mérito era todo do grupo. Comecei a assustar-me!

Onde tanta calma e serenidade depois de uma verdadeira batalha? Um jogo nervoso, uma disputa de pênaltis. Qual a sua idade, indaguei: - Eu tenho 17 anos, respondeu o menino-homem que freqüenta as seleções brasileiras de base desde os 14 anos.
Percebi uma jóia rara ali. E emendei, de primeira: “Qual o seu ídolo? Júlio César, Dida, Tafarell?”

“- Olha, tenho respeito pelo Júlio César, pelo Dida, pelo Tafarell, mas meu grande ídolo é o Barbosa, da Seleção de 50. Não acompanhei ele jogar porque não era nascido, mas li toda sua biografia. É meu verdadeiro ídolo!”
Neste momento, meus olhos lacrimejaram. Somente os meus, porque o Luis Guilherme continuava ali, com o mesmo olhar sereno, o mesmo tom de voz e a verdade estampada na fisionomia. O menino acabava de surpreender com o nome de Barbosa, talvez a mesma surpresa que o goleiro tivera com o chute do uruguaio Ghiggia, no canto esquerdo do gol, em 1950, no Maracanã.

Massacrado covardemente por grande parte da imprensa e da torcida brasileira durante toda sua vida, Barbosa recebia, naquele momento, de um menino, negro como ele, excelente goleiro como ele, sua mais autêntica redenção!

“- Olha João ... você está de parabéns por essa declaração”. Sim, completamente aturdido pelo gigantismo do garoto Luis Guilherme, chamei-o João. Decerto minha mente associou-o a um João gigante como ele, talvez o João do Pulo. O Júlio César, “Uri Geller”, espetacular ponta esquerda do Flamengo de Zico, comentava a partida e foi na minha: “É o João Barbosa!”

Certamente que os erros de nome, fios e microfones ficaram menor perto da grandeza do Luis Guilherme. Ou melhor, do “Luis Barbosa”. Encerro este pequeno rabisco tomando emprestada a pena de um grande escritor, que assim como o Luis Guilherme, conhecia as virtudes do grande Barbosa:

Certamente, a criatura mais injustiçada na história do futebol brasileiro. Era um goleiro magistral. Fazia milagres, desviando de mão trocada bolas envenenadas. O gol de Gighia, na final da Copa de 50, caiu-lhe como uma maldição. E quanto mais vejo o lance, mais o absolvo. Aquele jogo o Brasil perdeu na véspera.”
(Armando Nogueira)

Gaivões surpreendendo novamente


Recebi um email do Denis, diretor social da Gaviões da Fiel. O comunicado convocava a torcida para se cadastrar no comboio para a guerra. A guerra de solidariedade de São Luis de Paraitinga.


Vão sair vários ônibus da torcida e levar alimento, água, trabalho e solidariedade àquele povo sofrido. Detalhe: a corrente do bem da GAviões vai viajar a São Luis do Paraitinga no dia em que o Corinthians estreia no campeonato Paulista.


Porque a grande mídia não divulga este tipo de atitude?

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Feliz Natal

Já é quase hora. Uns vão ler esta mensagem depois da meia-noite, outros antes. Não há problemas. Nestes tempos em que a internet e as redes sociais tornaram-se mais importante que um abraço, faz-se necessária a reflexão do fim do ano.
Reitero a observação exata de como a solidariedade dá as caras neste momento. Quisera todos os dias, fossem noites de Natal.
Quisera o mundo não fosse tão hostil e pudéssemos descerrar os nós dos sentidos em todas as épocas do ano.
Desejo aos meus amigos, aos não tão amigos, aos desconhecidos, aos bem conhecidos, a minha família de origem e à família que de companheiros que escolhi aqui no planeta Azul, uma plêiade de alegrias e transformações.

Beijo no coração de todos.

Feliz Natal. Grande Ano Novo. E alegrias novinhas em folha.

sempre
rodrigo

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Só podia ser você


Meu último post aqui criticava o fato de ninguém , principalmente de Araraquara, ter escrito antes da morte de Hebert Richers.
Cometi um erro.

O Ignácio de Loyola havia escrito. E alertou-me sobre isso.
Portanto, reproduzo aqui embaixo seu texto, publicado no jornal Tribuna Impressa, em 25 de novembro de 2006


Araraquarenses, preparem-se para mais esta

Por Ignácio de Loyola Brandão

Escrevo de Natal, Rio Grande do Norte, onde encerro amanhã um encontro de escritores. De repente, lembrei-me. E a crônica da Tribuna? Corri. Porque tenho uma revelação a fazer. Quem não ouviu a frase: Versão Brasileira Herbert Richers? Quem não sabe que se trata do maior estúdio de dublagens do Brasil? Quem não sabe que Herbert Richers foi um pioneiro no seu campo? Quem não se lembra como, no início, as dublagens eram criticadas, ninguém queria ouvir atores estrangeiros falando português? Marlon Brando falando “brasileiro”? Brad Pitt, Angelina Jolie? Coisa mais cafona! Era o preconceito que Richers enfrentou durante décadas, mudando o panorama. Graças às dublagens, a população analfabeta do Brasil conseguiu ver e entender filmes, sem precisar de legendas. Ele é um vencedor e um pioneiro. Mais do que isso, Richers produziu 60 filmes, sendo um deles um clássico, o antológico e maravilhoso “Vidas Secas”, de Nelson Pereira dos Santos, obra-prima baseada no romance de Graciliano Ramos. Cito também “O Assalto ao Trem Pagador”. Pois na semana passada tive uma surpresa das maiores e os araraquarenses vão gostar da revelação. Não sei se em primeira mão. Ao que eu saiba, nunca foi divulgada esta informação. Pois fui ao Rio de Janeiro fazer uma entrevista para a revista Vogue com Cookier Richers, mulher de Herbert. Moram no Leblon em um apartamento com vista deliciosa. Conversa vai, conversa vem, o assunto recaiu em origens das pessoas. De onde você é? Cookie me perguntou. E quando respondi Araraquara, ela sorriu e quase gritou: “Não acredito”. Perguntou de novo: “Jura?”. Jurei. E ela: “Precisamos ligar para o Herbert”. O mito do cinema nacional está hoje com 83 anos e em plena atividade com seus estúdios e sua empresa de home theatre, da qual foi também um pioneiro. Ligamos. E Herbert do outro lado da linha.- Também você é araraquarense?- Sou. Mas por que a surpresa?- Eu sou de Araraquara.- Não acredito. Você não é descendente de alemães que fundaram Blumenau?- Sou, mas nasci em Araraquara.- Onde?- Na fazenda Baguaçu. Há pouco estive lá, é bonita, um belo lugar, uma bela cidade.Quem sabia? Êta, Araraquara, eu quase disse naquela tarde. Quem diria. Herbert Richers, esta lenda. Araraquarense