Chegamos à quadra da Gaviôes da Fiel por volta das 6 da tarde.
Tambores, rojões, barulho. Torcedores tatuados de corinthians da cabeça aos pés. Em meio ao aparente caos, surge uma moça de feições suaves e voz firme:
Tambores, rojões, barulho. Torcedores tatuados de corinthians da cabeça aos pés. Em meio ao aparente caos, surge uma moça de feições suaves e voz firme:
“- Acabei de saber que viriam. É pra fazer a reportagem da torcida que vai a Porto Alegre, né?"
“-Olha eles vão viajar durante umas 20 horas. Isto só pra ir. Depois, mais vinte pra voltar...Vou arrumar uns personagens legais pra você gravar: tem um menino que vem de Goiânia pra cá todo jogo. E daqui vai pra onde o Corinthians for. Já volto” - sentenciou.
Nem precisei produzir a reportagem. A menina sacava as coisas rápido. Depois fiquei sabendo que Érica – acho que esse era o nome – era uma espécie de secretária da torcida. E resolvia tudo, com pulso firme : “Não dá tempo de brincar aqui, é muita gente”, comentou.
Era muita gente. 1200 torcedores que iriam até Porto Alegre, onde o Corinthians se tornaria campeão da Copa do Brasil, contra o Internacional. A viagem era de ônibus fretado, ou alugado. Alí na concentração, antes da partida, comecei, ainda que timidamente, prever o que seria mais uma demonstração de idolatria e fé.
Começamos a gravar. Gente de todos os tipos e cores: casais, filhos, trabalhadores
“– Mas vocês não trabalham amanhã?”
“-Trabalhamos, mas se perder o emprego e o Corinthians vencer , a gente arruma outro emprego melhor. Deus ajuda!”
“- Escuta, tudo bem, entendo um pouco a paixão de vocês, mas 20 horas de viagem, pra assistir duas horas de jogo e depois voltar em mais 20 horas, são dois dias inteiros, vale a pena?”
“- Escuta, tudo bem, entendo um pouco a paixão de vocês, mas 20 horas de viagem, pra assistir duas horas de jogo e depois voltar em mais 20 horas, são dois dias inteiros, vale a pena?”
A resposta vem de uma senhora de 67 anos, isso mesmo, 67 anos
“ – Olha, vale muito a pena. Isso aqui é minha vida. Tanto é que meu marido fica em casa, não quer ir, nao vai.”- falou sem culpa.
“- E respeitam a senhora no ônibus? “
“- A gente se dá o respeito, né meu filho...”.
Começo a me apaixonar pela paixão deles. Em meio ao fanatismo encontro Dênis, diretor social da Gaviões da Fiel. “Rapaz, tô super nervoso, hoje à noite tenho que ir até a MTV, no programa do Lobão. Tenho um debate sobre torcida organizada. Todo mundo só debate a questão da violência, mas ninguém quer fazer reportagem do trabalho social.”
“- Olha Dênis. Eu vim fazer reportagem da viagem desse “bando de loucos”, mas posso escrever algo no meu blog pessoal, desde que o trabalho exista, de fato.”
“- Olha Dênis. Eu vim fazer reportagem da viagem desse “bando de loucos”, mas posso escrever algo no meu blog pessoal, desde que o trabalho exista, de fato.”
“- Venha ver.”
E aí o espanto foi geral. Como pode uma torcida organizada, tão estereotipada pela grande mídia, oferecer sala de internet com reforço escolar para crianças da comunidade? Na segundo andar do ginásio ainda vejo uns atletas treinando e Dênis me socorre “-São aulas de arte marciais, também para o pessoal da comunidade”.
Ponderei que a questão das organizadas não era fácil. Que havia e há muitos precedentes, o tema é polêmico. E o Dênis corroborando: “Aqui existem os dois lados, como em qualquer outra inatiruição organizada da sociedade. Não dá pra generalizar, mas se o menino quiser ir para o lado bom, da cidadania, vai encontrar espaço”
Humildade, Lealdade e Procedimento. Olhei para a inscrição na parede do ginásio e comecei entender um pouco o outro lado da história. Absorto em meus pensamentos, fui “acordado” pelo Dênis:
“ -Está na hora da sopa, venha tomar um pouco com a gente.”, convidou, sorridente.
“ -Está na hora da sopa, venha tomar um pouco com a gente.”, convidou, sorridente.
Cheguei à cozinha, fui apresentado às simpáticas cozinheiras - “Uma vez por semana, servimos sopa aqui na quadra da gaviões. O pessoal trabalha o dia inteiro e chega com fome. Experimenta”
Ainda não havia terminado o meu trabalho, mas tomei dois pratos da saborosa sopa. A meu lado, além da equipe de reportagem, estava o Maradona, cachorro que, segundo eu soube, já fazia parte da torcida.
Fui terminar minha gravação. Peguei outros ótimos personagens. Mas era outra coisa que me pegava: como entender aquela gente que só se vê caricaturizada nas brigas horríveis em programas de tv. Lembrei de uma frase que ouvi esses dias: Uma bomba faz mais barulho que
um abraço.
Dênis tirou umas fotografias. Pedi a ele pra me enviar. Enviou, no prazo combinado. Como enviou também informações do I Encontro Nacional de Torcidas Organizadas e Uniformizadas – Paz no Futebol.
Fiquei de escrever uma crônica, falando dessas pequenas coisas, que não fazem barulho. Estão aqui Dênis, neste pequeno espaço. Espero que faça um barulhinho.
abraços

