sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Só podia ser você


Meu último post aqui criticava o fato de ninguém , principalmente de Araraquara, ter escrito antes da morte de Hebert Richers.
Cometi um erro.

O Ignácio de Loyola havia escrito. E alertou-me sobre isso.
Portanto, reproduzo aqui embaixo seu texto, publicado no jornal Tribuna Impressa, em 25 de novembro de 2006


Araraquarenses, preparem-se para mais esta

Por Ignácio de Loyola Brandão

Escrevo de Natal, Rio Grande do Norte, onde encerro amanhã um encontro de escritores. De repente, lembrei-me. E a crônica da Tribuna? Corri. Porque tenho uma revelação a fazer. Quem não ouviu a frase: Versão Brasileira Herbert Richers? Quem não sabe que se trata do maior estúdio de dublagens do Brasil? Quem não sabe que Herbert Richers foi um pioneiro no seu campo? Quem não se lembra como, no início, as dublagens eram criticadas, ninguém queria ouvir atores estrangeiros falando português? Marlon Brando falando “brasileiro”? Brad Pitt, Angelina Jolie? Coisa mais cafona! Era o preconceito que Richers enfrentou durante décadas, mudando o panorama. Graças às dublagens, a população analfabeta do Brasil conseguiu ver e entender filmes, sem precisar de legendas. Ele é um vencedor e um pioneiro. Mais do que isso, Richers produziu 60 filmes, sendo um deles um clássico, o antológico e maravilhoso “Vidas Secas”, de Nelson Pereira dos Santos, obra-prima baseada no romance de Graciliano Ramos. Cito também “O Assalto ao Trem Pagador”. Pois na semana passada tive uma surpresa das maiores e os araraquarenses vão gostar da revelação. Não sei se em primeira mão. Ao que eu saiba, nunca foi divulgada esta informação. Pois fui ao Rio de Janeiro fazer uma entrevista para a revista Vogue com Cookier Richers, mulher de Herbert. Moram no Leblon em um apartamento com vista deliciosa. Conversa vai, conversa vem, o assunto recaiu em origens das pessoas. De onde você é? Cookie me perguntou. E quando respondi Araraquara, ela sorriu e quase gritou: “Não acredito”. Perguntou de novo: “Jura?”. Jurei. E ela: “Precisamos ligar para o Herbert”. O mito do cinema nacional está hoje com 83 anos e em plena atividade com seus estúdios e sua empresa de home theatre, da qual foi também um pioneiro. Ligamos. E Herbert do outro lado da linha.- Também você é araraquarense?- Sou. Mas por que a surpresa?- Eu sou de Araraquara.- Não acredito. Você não é descendente de alemães que fundaram Blumenau?- Sou, mas nasci em Araraquara.- Onde?- Na fazenda Baguaçu. Há pouco estive lá, é bonita, um belo lugar, uma bela cidade.Quem sabia? Êta, Araraquara, eu quase disse naquela tarde. Quem diria. Herbert Richers, esta lenda. Araraquarense

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Versão brasileira: homenagem fora de hora



Mais um tema que não fala diretamente de futebol. Mas fala de vida. Da vida de Herbert Richers, o pioneiro na dublagem de filmes no Brasi. Um empreendedor nato, que - em minha opinião - pode ser colocado no mesmo patamar de um Assis Chateaubrian

Quem, da nossa geração nunca foi assistir a um filme dublado e ouviu a voz onipresente do locutor, "versão brasileira- Hebert Richers" Pois é, este homem era real, existia até bem poucas horas.

O produtor de cinema Herbert Richers, dono da empresa que leva o seu nome e foi uma das pioneiras no ramo de dublagens no Brasil, morreu hoje aos 86 no Rio. Richards estava internado na Clínica São Vicente desde o último dia 8 e morreu em consequência de um problema renal.

O que chama a atenção e deu-me o mote de publicar aqui no blog é o fato de Richers ter nascido em Araraquara, no dia 11 de março de 1923. Em 1942 mudou-se para o Ri de Janeiro, onde fundou, em 1950, a companhia que leva seu nome. Atualmente, a empresa possui um dos maiores estúdios de dublagem da América Latina e é responsável por grande parte dos filmes exibidos em português no país.

Há cerca de 3 anos, o amigo jornalista Luis Augusto Zakaib, informou-me sobre a "cidadania" araraquarense de Richers. Pensamos em fazer um documentário, ou até roteirizar algo para algum veículo que comprasse a idéia. Ninguém comprou.

A idéia e os apoios também morerram.

E agora, ninguém vai fazer nada?

Tenho certeza que vai. Afinal, o homem morreu. E gostamos de homenagens póstumas.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Exagerado


Acabei de assistir o especial do Cazuza, no "Por toda minha vida", programa bem feito, construído e dirigido pelo Guel Arraes, na tv Globo.


Sempre ouvi o Cazuza. O inconformismo cético do poeta num primeiro momento e a melodiosa bossa no período pós-aids me acertavam a alma, sequiosa das respostas nos nostálgicos anos 80.

No especial da Globo vi que o Pedro Bial foi amigo de infância do Cazuza. Confesso que não sabia. O Bial é um texto e tanto. Poético, enxuto. A amizade explica-se aí, talvez.


Este breve relato é fruto da sensibilidade e das lágrimas que despendi durante o programa. Elas, as lágrimas, tem me acompanhado esses dias e os motivos são vários. De novos esses pequenos mistérios da vida. Mostram-me algo. Tomam-me algo.


Alguns esportistas-futebolistas devem estar se perguntando o que o Cazuza está fazendo no meu blog. É que falo de futebol e verbo. De vida.


Além do que, no dia em que ele morreu, um sábado (consulto, neste momento, apenas minha memória afetiva) era uma manhã linda em Araraquara e eu estava na arquibancada da Ferroviária, com meus colegas de time, esperando o início do treino. Mesmo com o cheiro da infância exalando na vida, senti uma tristeza profunda. Hoje me lembrei dela.




Sobre o último post - "O dia em que o céu se pintou de grená" - recebi comentários diversos e sinceros. Descobri famílias e revi amigos. Farei um post só sobre esses comentários.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O dia em que o céu se pintou de grená




"Não vai escrever sobre o novo estádio da Ferroviária? " Desta vez foi meu pai que cobrou o texto. Senti alegria nesse pedido do velho, afinal, ele nunca me acompanhou nos jogos de futebol quando menino. E como considero dois os ofícios da minha vida - escrever e jogar futebol - achei que o pedido foi uma redenção.

Redenção também foi ver a nova Arena da Fonte. Cheguei junto com o por do sol. O astro-rei caindo na tardezinha e as nuvens no céu tomando um aspecto estranhamente lindo - um grená afeano. Poesia de imagem. Realidade. Pequenas magias afeanas.
Assim que cheguei fui conhecer a área nobre - os chamados camarotes - subi de elevador! Quando a porta abriu, a beleza do estádio em perspectiva me cegou tanto que chorei. Chorei copiosamente. Algum neurocientista poderia me explicar qual a relação entre a felicidade do olhar e a produção de lágrimas? Curioso isso.
O deus do acaso ainda fez-me encontrar, logo ali, craques do passado. Sentei-me com o Douglas Onça e contemplamos um pouco mais a maravilha ali, a nossa frente. Depois fui cumprimentar o Pio, o Maritaca, o Marinho Rã, o goleiro Machado, o ponta-esquerda Ney e o lateral Fogueira, que juntavam-se em gerações que só mesmo aquele dia mágico poderia proporcionar.

Olha, vou ser sincero, prestei pouca atenção no jogo. Era tanta gente das antigas e tanto estádio novo pra olhar, que minha visão desviava-se dos 22 jogadores e mirava as 22 mil pessoas e lugares. Mesmo assim fui capaz de ver o gol do Fernando Luís, marcando também sua história na História da Ferroviária.
No segundo-tempo fui para o outro lado, conhecer as elegantes cabines de imprensa do estádio. Fui também ao Restaurante, onde autoridades engravatadas impressionavam-se com a nova Arena.

A vitória da Ferroviária, no dia da inauguração do seu estádio, foi apenas um feixo para este dia mágico. Saímos todos felizes do estádio. Emoção verdadeira. Grená.

*texto publicado originariamente no site http://www.ferroviariasa.com.br/










segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Direito Autoral nos dribles de futebol

Sempre considerei o futebol uma arte. Nas minhas aulas, na Fiam, em São Paulo, faço questão de contextualizar o esporte à sociologia, antropologia, psicologia e uma série de outras ciências, que são fruto de um saber moderno.

Pra ficar mais fácil meu palavreado, quero dizer que música, poesia, teatro, cinema, circo, fotografia e futebol estão num mesmo patamar. Ou pelo menos é assim que vejo. E alguns teóricos da comunicação e da fisiologia começam a tratar assim o nobre esporte vindo da Gra-Bretanha.

O preâmbulo é pra estimular um debate: o direito autoral nos dribles. Que eu me lembre, e me corrijam os aficcionados, não há nenhum direito autoral pago pelo drible. Isso mesmo.

Paga-se direito autoral para um músico que compõe determinada letra ou melodia. Em teses acadêmicas, exige-se citação e crédito aos donos de determinada sentença. Enfim, crédito, a quem é de credito, é de direito. Mas, salvo engano enorme, o Didi nunca ganhou um centavo a mais pela “folha-seca”. Vez ou outra é citado por um saudosista bobo, como este que subscreve..

Quer outro exemplo? Então veja Rivelino. O inventor do “elástico” -sei que virão os mais sabidos dizerem que quem inventou foi um japonês, que o próprio Riva teria declarado isso – mas enfim, é um caso que teria solução com o Direito Autoral do drible.

Se o Leônidas da Silva tivesse patenteado a “bicicleta”, não seria apenas o “Diamante Negro”. Poderia faturar bem mais do que com o chocolate.

E já que o assunto é bicicleta, o que dizer das pedaladas do Robinho? Aliás, foi o Robinho que inventou as pedaladas? Debate aberto...

Como aprendi com um amigo que um texto é construído “no diálogo” entre leitor/autor, peço correções e exemplos de outros dribles/jogadas. Com a autoria reconhecida, de preferência.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Detalhes


É, talvez, a canção mais conhecida de Roberto Carlos, feita junto com seu eterno parceiro Erasmo Carlos. Foi anunciado que o Rei vem fazer um show em Araraquara, em novembro. O local é a Arena da Fonte Luminosa. Com capacidade para 25 mil pessoas, totalmente coberta e seguindo absolutamente todos os padrões Fifa, a Arena é uma obra sem precedentes para a cidade. Nada mais justo, portanto, um show de Roberto Carlos em palco tão esplêndido.

Um detalhe, no entanto, vem chamando a atenção da comunidade araraquarense. A notícia de que o jogo de inauguração da Arena seria realizado pela Sociedade Esportiva Palmeiras, numa de suas partidas válidas pelo campeonato brasileiro, em setembro.

Ainda segundo a informação, a preliminar seria disputada pela equipe de Futebol Feminino de Araraquara, numa justa homenagem ao time que, mesmo sem muitos recursos, já é bicampeão paulista. Ontem, durante uma coletiva de imprensa realizada na Arena, o prefeito confirmou que pretende mesmo trazer o time do Palestra Itália para inaugurar a nova Arena, num jogo que seria transmitido pela tv.

Mas, como diz a canção do Roberto: “não adianta nem tentar, me esquecer”. É a voz da história clamando pelos 59 anos de glórias, alegrias, tristezas e paixões de toda sorte geradas pela Ferroviária.

Não cabe aqui, neste artigo, enumerar os grandes feitos do nosso time. Também seria desproposital, neste momento, relembrar os últimos desmandos administrativos e a situação vexatória em que nos encontramos atualmente. Existe gente muito mais habilitada que eu para fazer isso. E você, leitor, encontra essas pessoas na esquina de sua casa, na banca de jornal ou no cafezinho da padaria. Porque a Ferroviária, assim como a Arena, é de domínio público.

Também não se trata de desacreditar o futebol feminino. É óbvio que as meninas merecem todo nosso apoio e reconhecimento. Penso que está havendo um erro de foco na discussão. Senão, vejamos.

Na data de inauguração da Fonte Luminosa (Estádio Adhemar de Barros), em 10 de junho de 1951, a Ferroviária recebeu o Vasco da Gama, do Rio de Janeiro, time que era base da Seleção Brasileira de Futebol, que havia acabado de conquistar o vice-campeonato Mundial no Maracanã.

Qual, então, seria a solução mais lógica para a inauguração da Arena?

Remontar historicamente a festa e trazer o Vasco da Gama para enfrentar a Ferroviária. Detalhe: o técnico do Vasco é o araraquarense e ex-jogador afenano, Dorival Junior. Tenho a informação, segura, de que os cariocas, viriam jogar sem problemas.

O olhar míope que não enxerga a tradição da camisa e vê apenas os jogadores, diria: mas nosso time é bem pior que o deles, estamos na terceira divisão, não temos condições de jogar no estádio. Verdade, mas em 1951, na inauguração da Fonte, o resultado foi de 5 x 0 para o Vasco e isso não passou de um mero Detalhe. Mais um. O importante era a Ferroviária estar inaugurando o estádio.

Mas voltemos a considerar que o Palmeiras faça o jogo de inauguração. A partida preliminar (embora eu já tenha ouvido de muitos engenheiros que um gramado novo como aquele não deveria ter dois jogos seguidos) poderia ser entre jogadores veteranos.

Sim! Porque não utilizarmos a ocasião para pagar uma dívida histórica com nossos craques. Um jogo entre os veteranos da Ferroviária e do Vasco. O número de ex-craques grenás que passaram por aqui e nunca receberam uma homenagem justa é imenso, você sabe leitor. Escale aí, na sua cabeça, um time veterano e verá.

Justiça seja feita, o prefeito disse, ontem, que tem conversado com o araraquarense Careca (ex-Guarani, Nápoli e Seleção Brasileira) e também está estudando a possibilidade de realizar um jogo entre a Seleção Brasileira de Masters e a Ferroviária.

Bem, eu sei que esses detalhes vão sumir na longa estrada, do tempo que transforma todo amor em quase nada. Mas, ainda compartilhando com o Rei Roberto, quero dizer, em nome da Ferroviária, que “um grande amor não vai morrer assim. Por isso, de vez em quando você vai, vai lembrar de mim...

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Entrevista


Num exercício de metalinguagem, de olhar pra si mesmo, sem deixar de olhar o outro, sugiro que deêm uma olhada nesta entrevista que concedi ao colega jornalista e amigo mineiro Pedro Varoni.
O Pedro também é blogueiro e dos melhores. Escritor de mão cheia. Sugiro a leitura dos posts dele. Os textos dele falam por sí.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

3 toques e uma homenagem

Durante a madrugada desta segunda-feira, fiquei asistindo à reprise da entrevista do escritor e jornalista Gay Tallese, no Roda Viva, da Tv Cultura. Humano, literário, profundo. Lembrei-me de vocações. Ele falava e me vinha à mente os ideais da adolescência, da fase antes do vestibular, dos porquês do jornalismo. Detalhe: Mr.Tallese tem 77 anos e é considerado o papa do new jornalism, um jornalismo escrito como se fosse ficção. Anima a gente!

Ainda na tv cultura, vi, nesta segunda-feira, uma entrevista do Chico Buarque no antigo e genial Vox Populi. Acho que o Chico só teve os cabelos envelhecidos. O pensamento continua o mesmo. Destaque para o momento em que ele fala que ao jogar futebol (ele é ponta de lança), sente o mesmo que sente quando compõe. Duas formas de arte, então.

Ontem Telê Santana faria aniversário. Quando de sua morte, escrevi a ele um texto. Alguns já leram, peço desculpas. Mas o publico novamente aqui embaixo.

Ah, deixem seus emails nos comentários. Gosto de comunicar.
Abraços


Telê Santana, lições de vida através do futebol

Goethe disse certa vez que aquele que se apóia em uma vontade firme, vive um mundo a seu gosto. Desde os tempos de meninote, carregava na mente juvenil o desejo de ver pessoalmente o técnico de futebol Telê Santana. Isto porque gostava dele. Simples assim.
Telê montou a Seleção Brasileira de 1982, conseguindo juntar num só time magia, democracia, alegria e inovação. Foi o primeiro a fechar um quadrado no meio campo e o último a abolir o que chamamos comumente de “futebol-arte”. Então, na minha cabeça, pensava: ainda vou conhecer esse homem, o Telê Santana.
Vida que passa, crianças crescendo, fios de cabelos brancos despontando em mim como a dizer: lembra-te menino, da tua promessa de criança - um menino sempre confia em outro menino. Pois bem, era chegada a hora!
O ano era 2002. A cidade, Belo Horizonte. Trabalhava eu numa afiliada da Rede Globo, a EPTV Sul de Minas e, neste momento fazia uma experiência na Tv Globo Minas. Chega-me o Elzo, ex-volante da Copa do México de 1986, comentarista da tv em que eu trabalhava, amigo de horas boas e ruins e diz: “Rodrigo, quer ir na casa do Telê Santana? Grava uma entrevista com ele: estamos na véspera da Copa e tal e coisa...”.
Mais que depressa avisei aos “superiores” que teriam uma entrevista com Telê Santana. Vale aqui um parêntese precioso: o Elzo, volante de capacidade técnica apenas razoável, mas com um senso de direção e “vontade” fora do comum, conseguia uma coisa impossível: entrar na casa do Telê. E ainda me levar junto.
“Aqui em casa só entra o Zico, o Júnior e o Elzo. Depois que o papai ficou doente, temos que selecionar um pouco, senão fica muita gente”, foi assim que o Renê Santana, filho do Telê, nos recebeu na porta de entrada de um pequeno, simples, porém aconchegante apartamento, num bairro médio de Belo Horizonte.
Entro no apartamento e me deparo com a cena que ficaria na minha retina para sempre - Telê sentado à mesa, olhar catatônico. Dona Ivonete, abnegada esposa, dando de colherinha, sopa na boca do mestre.
Tudo me vem à mente neste momento: a promessa que fiz a mim mesmo na infância, as lembranças do enérgico Telê na televisão, as histórias que o Elzo me contava sobre ele, o futebol mágico de 82, a derrota para a França em 86, o derrame de Telê...tudo...parecia cena de filme.
O cinegrafista Marco Nascimento, mais um colega perdido no tempo, me sacode: “acorda Rodrigo, vamos gravar”. Foi a melhor entrevista da minha vida! Lembro-me, como se fosse hoje, o Telê dizendo: “Eu levaria o Romário para a Copa, ele joga bonito”. E o Renê, filho atencioso, pedindo: “Rodrigo, não coloca isso no ar, papai está muito sensível, anda falando a verdade além da conta. E outra, somos amigos do Felipão, não queremos problema.” Atendi o pedido do Renê, tanto é que ao chegar à redação da Rede Globo, comentei com o editor da casa que, rapidamente, queria mandar a resposta do Telê para o programa “Fantástico”. Eu disse: olha amigo, só se você tomar a fita da minha mão, porque me comprometi com o Renê.”
Em meio à gravação, paramos para tomar um café forte, bem servido com a tradicional acolhida mineira da dona Ivonete, mulher simples e de fibra. Em dado momento, e até hoje não sei bem o porquê disso, ela me conta toda a história do início da doença de seu marido: “o Telê teve o derrame foi durante o cateterismo. Ele passou mal no treino e o levaram para o hospital. Ai, durante o exame é que teve o acidente cardiovascular. Não é como todo mundo pensa.”
Mais uma revelação bombástica - Pô, eu repórter em início de carreira, com o cubo da Rede Globo em mãos. Tinha a matéria do ano, a chance de firmar carreira na emissora ou alçar outros vôos, quem sabe....mas, antes disso, vinha a promessa de criança: um dia ainda vou conhecer o Telê Santana. Então, apenas hoje, e nestas maltraçadas linhas, revelo isto com gratidão. Se alguma coisa de bom na vida me fez essa carreira amarga de jornalista, que nos coloca em posição de atirar pedras a todo momento, foi estar ao lado desta família.
Já no fim da entrevista, aproximando-se o momento de ir embora, aquela cena ainda congelada em minha retina – a dona Ivonete dando sopa na boca de Telê - eu com a camisa da Ferroviária de Araraquara nas mãos: “Queria deixar um presente pra vocês Renê: sou de Araraquara, interior de São Paulo, a camisa do time da cidade...” O Telê olha e exclama: “Ferroviária!”, com aquele sorriso gostoso que só ele sabia dar: deu pra entender, pela expressão do rosto, a simpatia do mestre pelo time. Mais uma conquista da minha infância!
Olho pro Elzo. Ele, com tanta história no Atlético Mineiro, no Benfica de Portugal, no Palmeiras, um homem daquele tamanho, com lágrimas nos olhos: “ô Rodrigo, vamos indo, deixar o comandante descansar”. Engraçado e esclarecedor, o Elzo, depois de tantos anos, se referir ao Telê desta forma: comandante.
No início deste ano, a cena se repete: estávamos nos estúdios da Rede Mulher em São Paulo, ao vivo para todo o Brasil, no programa do Milton Neves: lembro de uma história do Telê e o Elzo deságua novamente em lágrimas. O Milton me fala no ar: “Rodrigo, você está emocionando o Elzo. “ Ao que respondo: “to nada, é o Telê que mudou a vida dele. O Elzo o tem como um pai.”
Numa outra ocasião, o Milton Neves me pede para entrevistar o Galhardo, ex-zagueiro do Fluminense, Corinthians e Ferroviária, décadas de ouro de 60 e 70. Ao fim da entrevista, o Galhardão me diz num sotaque carregado dos morros cariocas: “Pô rapaz, não dou entrevistas pra mais ninguém, mas já que contei estas histórias aí pra tú, deixa eu mandar um recado pra um amigo que fiz no Flu”. Ai ele começa a falar do Telê e chora, sua esposa, que acompanha a entrevista, chora também...
E assim teria outras mil histórias de menino pra contar de Telê. Só que hoje, 21 de abril, dia da Inconfidência e de Tiradentes, quem chora é o Brasil. Chora por este mineiro de Itabirito que trazia na veia o romantismo assumido. Telê nos ensinou a exercitar o amor, através do futebol. Lágrimas correm aqui, acolá e em todo os cantos.
Aos torcedores do Fluminense, aos são-paulinos, aos bugrinos, atleticanos, gremistas, brasileiros, aos seres humanos. O fio da esperança, agora, é nosso santo lá de cima. Santo Esperança Telê Santana.
Um outro mestre, este dos escritos, o Drumond, dizia que lutar com palavras é uma luta vã. Então não há mais nada a dizer. Não cabe.
Segue em paz, velho mestre. E vela por nós, para que possamos jogar bonito aqui embaixo.

terça-feira, 14 de julho de 2009

O barulho silencioso da Gaviões

Terça-feira.
Chegamos à quadra da Gaviôes da Fiel por volta das 6 da tarde.
Tambores, rojões, barulho. Torcedores tatuados de corinthians da cabeça aos pés. Em meio ao aparente caos, surge uma moça de feições suaves e voz firme:

“- Acabei de saber que viriam. É pra fazer a reportagem da torcida que vai a Porto Alegre, né?"

“- Isso. A gente...." - tentei continuar.

“-Olha eles vão viajar durante umas 20 horas. Isto só pra ir. Depois, mais vinte pra voltar...Vou arrumar uns personagens legais pra você gravar: tem um menino que vem de Goiânia pra cá todo jogo. E daqui vai pra onde o Corinthians for. Já volto” - sentenciou.

Nem precisei produzir a reportagem. A menina sacava as coisas rápido. Depois fiquei sabendo que Érica – acho que esse era o nome – era uma espécie de secretária da torcida. E resolvia tudo, com pulso firme : “Não dá tempo de brincar aqui, é muita gente”, comentou.
Era muita gente. 1200 torcedores que iriam até Porto Alegre, onde o Corinthians se tornaria campeão da Copa do Brasil, contra o Internacional. A viagem era de ônibus fretado, ou alugado. Alí na concentração, antes da partida, comecei, ainda que timidamente, prever o que seria mais uma demonstração de idolatria e fé.
Começamos a gravar. Gente de todos os tipos e cores: casais, filhos, trabalhadores
“– Mas vocês não trabalham amanhã?”
“-Trabalhamos, mas se perder o emprego e o Corinthians vencer , a gente arruma outro emprego melhor. Deus ajuda!”

“- Escuta, tudo bem, entendo um pouco a paixão de vocês, mas 20 horas de viagem, pra assistir duas horas de jogo e depois voltar em mais 20 horas, são dois dias inteiros, vale a pena?”
A resposta vem de uma senhora de 67 anos, isso mesmo, 67 anos
“ – Olha, vale muito a pena. Isso aqui é minha vida. Tanto é que meu marido fica em casa, não quer ir, nao vai.”- falou sem culpa.
“- E respeitam a senhora no ônibus? “
“- A gente se dá o respeito, né meu filho...”.
Começo a me apaixonar pela paixão deles. Em meio ao fanatismo encontro Dênis, diretor social da Gaviões da Fiel. “Rapaz, tô super nervoso, hoje à noite tenho que ir até a MTV, no programa do Lobão. Tenho um debate sobre torcida organizada. Todo mundo só debate a questão da violência, mas ninguém quer fazer reportagem do trabalho social.”

“- Olha Dênis. Eu vim fazer reportagem da viagem desse “bando de loucos”, mas posso escrever algo no meu blog pessoal, desde que o trabalho exista, de fato.”
“- Venha ver.”
E aí o espanto foi geral. Como pode uma torcida organizada, tão estereotipada pela grande mídia, oferecer sala de internet com reforço escolar para crianças da comunidade? Na segundo andar do ginásio ainda vejo uns atletas treinando e Dênis me socorre “-São aulas de arte marciais, também para o pessoal da comunidade”.
Ponderei que a questão das organizadas não era fácil. Que havia e há muitos precedentes, o tema é polêmico. E o Dênis corroborando: “Aqui existem os dois lados, como em qualquer outra inatiruição organizada da sociedade. Não dá pra generalizar, mas se o menino quiser ir para o lado bom, da cidadania, vai encontrar espaço”
Humildade, Lealdade e Procedimento. Olhei para a inscrição na parede do ginásio e comecei entender um pouco o outro lado da história. Absorto em meus pensamentos, fui “acordado” pelo Dênis:

“ -Está na hora da sopa, venha tomar um pouco com a gente.”, convidou, sorridente.
Cheguei à cozinha, fui apresentado às simpáticas cozinheiras - “Uma vez por semana, servimos sopa aqui na quadra da gaviões. O pessoal trabalha o dia inteiro e chega com fome. Experimenta”
Ainda não havia terminado o meu trabalho, mas tomei dois pratos da saborosa sopa. A meu lado, além da equipe de reportagem, estava o Maradona, cachorro que, segundo eu soube, já fazia parte da torcida.
Fui terminar minha gravação. Peguei outros ótimos personagens. Mas era outra coisa que me pegava: como entender aquela gente que só se vê caricaturizada nas brigas horríveis em programas de tv. Lembrei de uma frase que ouvi esses dias: Uma bomba faz mais barulho que
um abraço.
Dênis tirou umas fotografias. Pedi a ele pra me enviar. Enviou, no prazo combinado. Como enviou também informações do I Encontro Nacional de Torcidas Organizadas e Uniformizadas – Paz no Futebol.
Fiquei de escrever uma crônica, falando dessas pequenas coisas, que não fazem barulho. Estão aqui Dênis, neste pequeno espaço. Espero que faça um barulhinho.
abraços

segunda-feira, 29 de junho de 2009

O pai do Ronaldo

Sábado, manhã gelada em São Paulo e a preguiça ali, me pedindo pra ficar com ela. Fiquei um pouco, confesso. Pouco depois da 1 da tarde saí pra almoçar... Andei um pouco pela avenida Paulista observando os arranhásseis de cimento. Engraçado, como aos sábados, São Paulo lembra-me o interior e os prédios perdem sua força. Olhando pro alto, até o céu fica de interior... mas, ao menos por agora, deixemos essas bobas nostalgias de início de inverno.

Resolvi parar no Prainha, um restarante/choperia simpático, numa das travessas da Paulista. Sentei-me ao lado de outro solitário. O senhor, de pele escura de sol, ar acolhedor e sorriso no canto dos olhos, cumprimentou-me. Pareceu-me familiar. Aquele óculos suspenso na testa ... parecia...seu Nélio, o pai de Ronaldo. Sim, ele mesmo, o fenômeno.

- O senhor é o pai do Ronaldo? atrevi

- Sou, sou...- monassilabou com o canto da boca.

Numa das mãos um cigarro – Holywwod – é bom registrar. E na outra um copo de whisky. No início – e somente no início, fiquei em dúvida se deveria me aproximar mais, falar do Ronaldo, Corinthians....ou qualquer outra petulância descabida naquele momento. Fiquei quieto.Passou um rapaz na calçada e disse: “Sr. Nélio – sou fã do filho do senhor, hein...” nada que esse homem, de jeitão comum, não deva ter ouvido 1 zilhão de vezes...

Depois veio o garçom-chefe e estacionou ali. - “O Ronaldo vai pra Copa, o senhor vai ver”; - “Queria o Ronaldo no Guarani, sou de Campinas”, - “O Ronaldo jogou muito contra o Inter, fez um golaço..” enfim, bajulou toda a série de ronaldices que você, leitor, pode imaginar.

Pra minha surpresa, o seu Nélio entrou na conversa. Respondia ao garçom com tranqüilidade. Monossilabava, é verdade. Mas o olhar era de quem estava na conversa. E convidava-me à
tertúlia.

Mais um copo de whisky “O Dunga vivia grudado no Ricardo Teixeira, na Copa da França, em 2006. Ninguém me falou. Eu vi..eu estava lá....”. “O Mano é gente boa, parece bravo só na televisão.” “Onde já se viu o São Paulo mandar o Muricy embora”... Era seu Nélio – torcedor comum - opinando...“você é jornalista, deve saber melhor que eu”. Tudo o que sei é que nada sei. Sócrates, o filósofo acertara em cheio na Antiga Grécia. A essa altura, eu via chop e ele, com o inseparável whisky e cigarro holiwwod, já conversávamos na mesma freqüência.

Comecei a entender a simplicidade do Ronaldo. Não havia, nas palavras dele, nenhum tom de “pai do Ronaldo”. Perguntei a ele se estava no restaurante pelo nome: “Prainha”, pelo visual parecido com o do Rio de Janeiro. Ele falou que gostava sim do visual, mas havia parado ali por acaso, o mesmo acaso que me fez encontrá-lo. “Caminhei duas horas...do hotel até aqui, caminho todos os dias, faz bem, né? Faz sim, seu Nélio, faz bem ver como a vida é simples.

Não, não tirei nenhuma fotografia. Achei que seria gratuito. A imagética do texto é mais nítida, nesse caso. Teve uma frase que eu disse no meio da conversa, seu Nélio riu, levou na boa, mas foi inevitável. Acho que dá pra fechar a crônica com ela:

“ Se não fosse a porra do senhor, hein seu Nélio!”


Dança dos técnicos

Minha opinião é simples: São Paulo errou ao mandar o “comprometido” Muricy Ramalho embora. Identidade não se cria da noite para o dia.
Palmeiras acertou (demoradamente) ao se despedir de Vanderlei Luxemburgo. Só acho que o “estrategista” acabou montando sua saída. Ele sabia que Keirrison iria embora e , praticamente, “se despediu”.

Estou indo agora fazer Palmeiras x Santos. Espero, honestamente, que a campanha que boa parte da imprensa faz contra o Vagner Mancini, não seja motivo para o presidente do Santos, o amigo de Vanderlei Luxemburgo, Marcelo Teixeira, fazer a troca de técnicos. Mas acho difícil. Se Mancini perder, cai.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Mineira idade

Um trocadilho, pra dizer que os cabelos brancos, os calos e talos da vida afora, às vezes enferrujam os músculos, mas afinam a alma.

Há 3 dias fui a Atibaia, concentração do Cruzeiro, cobrir o treino dos mineiros para a partida contra o São Paulo, na Libertadores. Postei, aqui embaixo, minhas impressões (ou seriam intuições?) sobre o time mineiro e sua obstinação - principalmente a do treinador, Adílson Baptista.

Disseram-me eles - os jogadores Marquinhos Paraná, Leonardo Silva e , principalmente o Vágner - que o cruzeiro iria jogar a bola no Kléber para cavar a expulsão de algum jogador tricolor. Eduardo Costa foi expulso ainda no primeiro tempo, depois do primeiro cartão amarelo em falta cometida justamente em Kléber - bem apelidado pela torcida do Palmeiras de "Gladiador".

Quero dizer que considero Muricy Ramalho o melhor técnico do Brasil, e que tenho simpatia pelo São Paulo dos tempos de Telê. Mas quero dizer também que há 2 dias postei aqui no blog uma previsão (ou seria intuição?) de que o jogo seria, ao contrário do que dizem os grandes entendidos do futebol - ou aqueles que acham entendem - que o jogo seria difícil.

Foi difícil, principalmente para o São Paulo, que amargou uma derrota por 2 a 0 e está fora de seu - sempre - maior sonho de consumo: a Copa Libertadores.

A propósito, sugiro aos leitores uma vista sobre este texto, do colega jornalista Pedro Varoni, em crônica sobre Renato Andrade, maior violeiro do Brasil. Tem a ver com Minas, mineiridade, tem a ver com tudo.

Abraços

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Experimentando Minas


Jogo Duro. Duríssimo amanhã à noite, entre Cruzeiro e São Paulo, ou dizendo melhor, São Paulo e Cruzeiro, quartas de final da Copa Libertadores da América.

Ontem fiz o treino do Cruzeiro, no belíssimo hotel Bourbon, em Atibaia, refúgio das grandes equipes de futebol.

Noves fora, deu pra perceber que Adílson Batista é concetradíssimo (existe este termo?). Fiquei sabendo, por lá, que o homem vive na internet. Vasculha tudo sobre o adversário, vasculha tudo sobre o que a imprensa noticia sobre adversários...enfim, um Sherlok Holmes do futebol.
Como a bola é redonda fiquei feliz em ter encontrado o diretor de comunicação do Cruzeiro, Guilherme Mendes. Em tempo, o Guilherme foi chefe de Esportes da Globo Minas e me deu a oportunidade de fazer reportagem de campo na final do campeonato Mineiro de 2002, vencido pelo mesmo Cruzeiro.

O título da coluna tem a ver com o gênero que escrevo neste momento, mais próximo da notícia e menos da crônica.

Vamos ver na quinta-feira, mas o jogo vai ser duro para o São Paulo.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Da pureza


O técnico do Vasco da Gama ,Dorival Junior, quieto e mineiramente, vem fazendo um trabalho primoroso. Está recuperando a auto-estima de um time que caiu para a segunda divisão e trocou de presidente. Sendo que o último presidente era ninguém menos que Eurico Mirando. E o atual é ninguém mais que Roberto Dinamite.

Segue abaixo, uma crônica que escrevi - e foi publicada no jornal O Imparcial, de Araraquara, quando Junior estava no São Caetano, e foi vice-campeão paulista.

"Vejo o Junior uma vez por ano. Seu Dorival, o pai, mora no Santana, pertinho da casa de meus saudosos avós maternos Dito e Niva. Quando é Natal ou outra data importante do ano, o pica-pau, apelido dele, pára pra prosear. Falamos de tudo: do seu trabalho como desenhista na Viana engenharia na Rua Expedicionários do Brasil, no São José, quando ainda cursava o técnico em agrimensura no Logatti. Ele pergunta por meu pai e tios, depois lembro do futebol dele na Ferroviária na década de 80. Palmeiras, Grêmio, Juventude e outros tantos. No fim do ano passado paramos naquela mesma esquina para conversar:

- Fui convidado para dirigir o Paysandu. O time está na série A do Brasileiro, mas vou agradecer e recusar. Formaram a equipe agora. Tudo na vida tem que ser feito aos poucos, por etapas – contou o Junior no seu tom sereno e tranqüilo. Resultado dessa conversa: o Junior foi dirigir o Sport Recife e terminou como campeão pernambucano e o Paysandu, sem Junior nenhum comandando, foi rebaixado para a segunda divisão.

Ultimamente, além da esquina da casa da vó, o Brasil está tendo a oportunidade de conhecer de perto o Dorival Junior . Todos os finais de semana, em rede nacional, nas principais emissoras de televisão do Brasil ou nos jornais da capital, todos se perguntam, assombrados, quem é esse rapaz que conseguiu aplicar, de uma só vez, um nó tático no Muricy Ramalho do São Paulo e outro no Santos, do inatingível Vanderley Luxemburgo.

O rapaz, técnico do time do São Caetano, é sobrinho do moço de Araraquara. O moço de Araraquara – expressão criada por Fiori Gigllioti - é o Dudu, médio-volante dos áureos tempos grenás e mágico da academia de futebol do Palmeiras dos anos 70.

Assim como o Dudu , o Junior é cria da Ferroviária. A classe que ele ostenta com as palavras – a mesma que, ao lado do tio, tratava a bola – certamente está relacionada com o fato de os dois terem surgido na Ferroviária.

Claro que a boa educação que Junior e Dudu receberam da família influenciaram suas trajetórias. Mas como disse o escritor Lourenço Diaféria em sua crônica Que Simpatia!, em 1968, `além da simpatia, a Ferroviária possui também a fortaleza dos times de bem, cultivando o futebol com carinho e seriedade. Para ela, o futebol não é um fim, é um meio. Um instrumento de afirmação, uma ferramenta de trabalho, pela qual zela e do qual cuida.`

Talvez seja também por isso que o treinador da Ferroviária, Édson Só, vem fazendo este trabalho primoroso na série A-3 do campeonato paulista. Deve também ser esta a exata explicação para o gol nos acréscimos do Leandro Donizete na vitória grená do último sábado.

O momento do Junior no São Caetano e da Ferroviária no Paulista da A-3 convergem para o mesmo caminho que fazia os grandes tremerem em Araraquara nas décadas de 60, 70 e 80. A locomotiva parece caminhar de volta aos trilhos. "

Luxemburgo no divã

Há duas semanas o Palmeiras venceu o Vitória no Palestra Itália, jogando mal, muito mal. E olha que a equipe baiana teve um gol legítimo anulado. Ao fim do jogo Vanderlei Luxemburgo disse que o que valia era a vitória, não importava de que maneira. Engraçado. Logo ele, que sempre primou por times ofensivos, que jogam bonito. Logo ele, conhecido como o “estrategista”, disse que vale ganhar de qualquer jeito.

Luxemburgo não é mais o mesmo. Já foi o grande vencedor e, talvez, em algum momento, tenha sido mesmo o melhor técnico do Brasil. As constantes brigas e aparições desnecessárias fora de campo o prejudicam e, provavelmente, ele sabe disso.

Mas não acho que isso atrapalhe, afinal, ele, Luxemburgo, sempre se comportou dessa maneira. Penso que está mal taticamente mesmo. Vem escalando mal. Ou, no mínimo “contratou” mal no início do ano.

Só pra contrariar esta tese, domingo último agora, Luxemburgo e seu Palmeiras venceram, e bem, o Cruzeiro. No início do jogo perguntei ao técnico se ele esperava que o time fosse voltar a jogar bem: a resposta foi que sim, que todo mundo quer jogar bem ...enfim, uma resposta retórica.

Ao longo dos anos o discurso nas entrevistas de Vanderlei Luxemburgo ganhou mais importância que suas armações táticas. O técnico deu lugar à “instituição”. Pena.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Da simplicidade


- Tá de volta, meu filho? - foi o que me disse Mano Menzes, técnico do Corinthians, ontem em Itú, no Spa Sport, refúgio corintiano, pouco antes da entrevista coletiva. Expliquei pra ele que sim, havia saída da Band no final do ano passado e fui chamado novamente para um "free-lancer" de um mês, durante a Copa das Confederações.

- Estava onde nesse tempo? emendou o Mano. E eu - além das aulas, desempregrado....

-E a crise...é a crise....ainda brincou o comandante corintiano.

Depois, entrevista coletiva. Reposta a todas as perguntas com calma, serenidade e respeito e , porque não dizer, bom humor.

Na pauta, assuntos delicados, como a gordura de Ronaldo, o jogo com o Flamengo na Palestina no final do ano.... e o Mano ali..tirando de letra.

Penso que é essa simplicidade do treinador corintiano que o faz vencedor. Na semana passada, o site da rede americana CNN o considerou o quarto melhor do mundo. Mano relativizou, dizendo que melhor era a campanha do Corinthians, o time etc e tal. Pode até ser.

Mas que a imagem de "bom moço" não apague as qualidades técnicas e táticas de Mano. Ontem, ao chegarmos em Itú - eu e a equipe de reportagem - Mano Menezes estava realizando um "treinamento alemão", com 3 times dividindo apenas metade do campo. O time que perdia a posse de bola saía para quem estava de fora (mais detalhes com o Mano).

Dificilmente o Corinthians não vai continuar somando triunfos se manter Mano Menezes na comissão técnica. Não é fácil administrar Ronaldo, imprensa, diretoria, torcida e ainda ter que treinar (e bem) o time.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

DO MUNDO VIRTUAL AO ESPIRITUAL

Quero compartilhar com vocês este lindo e reflexivo texto do Frei Betto


Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos e em paz nos seus mantos cor de açafrão. Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: 'Qual dos dois modelos produz felicidade?'

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: 'Não foi à aula?' Ela respondeu: 'Não, tenho aula à tarde'. Comemorei: 'Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde'. 'Não', retrucou ela, 'tenho tanta coisa de manhã... '. 'Que tanta coisa?', perguntei. 'Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina', e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: 'Que pena - a Daniela não disse: 'Tenho aula de meditação!'
Estamos construindo super-homens e super-mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados.

Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: 'Como estava o defunto?'. 'Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!' Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?
Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizi­nho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual. Somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. E somos também eticamente virtuais...

A palavra hoje é 'entretenimento'; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: 'Se tomar este refrigerante, vestir este tênis, ­ usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!' O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba­ precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.
Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shoppings centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus; se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório; mas se não pode comprar certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do McDonald...

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: 'Estou apenas fazendo um passeio socrático'. Diante de seus olhares espantados, explico: 'Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz!".

O blog, a bola e o gol - a volta

“A bola sabe quando vai ser gol e se ajeita para o gol”. Este é apenas um, entre os muito enunciados, do intrigante Nélson Rodrigues. É o que ocorre no cotidiano absurdo de cada um de nós. Acordamos, tomamos café, trabalhamos, rezamos, transamos e até dormimos um pouco. Às vezes lemos.
Mas a vida sabe a peça que vai nos pregar. E vai se formatando, aos poucos, para nos brindar com algo novo: um trabalho, uma conquista, uma perda, um tesão qualquer...
Gêmeos siameses de uma mesma mãe: o gol e a vida, a palavra e o esporte, o futebol e o verbo.
A partir de domingo, retorno ao trabalho de repórter na tv bandeirantes.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Vinheta de abertura


Prazer e Dor ao escrever
Adorava escrever. Tinha mania, ou achava que era.
À noite, quando todos dormiam, pegava os teclados e rabiscava algo. Achava engraçado essa coisa de embaralhar em sua cabeça teclado de computador com caneta e lápis. Ele, que vivenciara a mudança da era da Remiwgton antiga para a era digital. Tudo muito estranho.
Mas estranho era não escrever. Escrever era falar o que não tinha altura na voz. Era gritar no papel. Então escrevia.
Compulsivamente escrevia. Nas noites de insônia escrevia. Escrevia como se escrever fosse seu último ofício no mundo. E era.
Escrevia pra viver. Achava que tinha um pouco de sacrifício na vida. Mas que valia. Tudo vale a penas se a alma não é pequena. Ficava reticente de usar frases conhecidadas, mesmo que fossem do Fernando Pessoa, mas se os grandes usavam, porque ele, daquele tamanho, não usaria. E usou.
Tornara-se um místico. Lia os seres que descobriram seu próprio caminho. E escrever passou a ser ritual. Coisa sagrada. Encontrava caminho nas linhas.